Humor na Litfan



Meu nome anterior pouco importa, agora me chamo Eduardo Cullen. Fechei o livro que acabara de ler com a certeza de ter encontrado uma nova filosofia de vida em minha existência vampírica. Como uma Scarlett O'Hara em O Vento Levou que bradou “Jamais passarei fome nesta vida”, de punhos erguidos, bradei “Jamais beberei sangue (humano) nesta vida”, me tornara um vampiro vegano.

Aquele romance platônico do livro era tudo o que eu precisava, um namoro sem sexo era um namoro sem constrangimentos. Como a nova geração estava mudada, a televisão me deixou burro, muito burro, demais. Havia agora virgens sedentas de um amor espiritual nos colégios. Belas precisando de uma mordida para realizarem seu sonho de princesa (mas só no quarto volume). Fui para meu caixão com essa sorte de pensamentos, e repousei um sono dos justos, como nunca antes em minha longa vida. Acordei e fui para o colégio central aqui na cidade de São Carlos, chamado Álvaro Guion. Mas a população o chama de Álvaro Guião, e o lema da instituição é Álvaro Guião, entra burro e sai ladrão. Acredito que não é a sério, afinal, como disse De Gaulle, esse não é um país sério. Aliás, esse não é um conto sério, e muito menos você é um leitor sério, caso contrário sairia deste website e iria fazer algo de útil para com a humanidade. Ou a animalidade, vá salvar um beagle enquanto há tempo.

Devidamente matriculado no período noturno da escola eu me sentei na primeira carteira, como o Edward do filme, e fiz cara de pastel, como o Robert Pattinson. Não demorou muito e uma garota me chamou para conversar. Era a cena do filme se repetindo, fomos para o mato, e eu estava prestes a lhe contar meu segredo. Mas ela me surpreendeu com beijos lânguidos e carícias voluptuosas. Envolto naquele turbilhão de emoções eu me deixei levar e passei a mão por todo seu corpo, até descobrir uma... Uma... Não, o decoro me impede de dizê-lo. Fugi daquele local aos prantos e me refugiei em meu porão. Liguei a TV no Animal Planet e, como se forças ocultas do universo quisessem me punir, lá estava um documentário sobre os elefantes e suas enormes trombas pra lá e pra cá. Vendo que aquela noite não poderia piorar, me refugiei no caixão e dormi um sono conturbado, onde misteriosos seres, meio mulher, meio elefante, me procuravam por toda a cidade para abusar de mim.

Estava pensando em desistir de meu novo modo de vida, quando comecei a ler Lua Nova. Terminei o livro em prantos e então peguei minha agenda de contatos e liguei para Xena e Safrinha, as índias vampiro da Amazônia. Elas conheciam todo mundo no mundinho vampírico, pedi então o endereço do lobisomem mais próximo, e decidido a começar uma guerra, rumei para os bosques de pinheiro de Itirapina, onde segundo as vampiretes morava Jacob. Cheguei por volta de duas da manhã no cafofo de Jacob e gritei:

— Apareça, Jacob.

Um vulto apareceu junto à porta:

— Não sei quem é Jacob, seu chupador!

— Garoto insolente, a garota é minha! — gritei, sem me preocupar com a publicidade de meus atos.

O homem veio para a escuridão.

— Eu sou conhecido como Zé Tonhão do Broa. Jacob nem é nome brasileiro, o que vocês vampiros andam usando?

Ante tamanha provocação, mostrei meus dentes e o ameacei com um grunhido.

—Venha lobisomem, lhe dou a vantagem do primeiro golpe!

O homem deu um passo para trás e disse que não queria confusão.

— Venha, seu vira-lata covarde!

— Mas não é lua-cheia esta noite, eu não vou me transformar.

Virei-me para o bosque e bati com o pé no chão. Como é ruim esses vira-latas não poderem se transformar quando quiserem! Stephenie Meyer sim sabe criar lobisomens!

— Pois qual seja cão sarnento, quando será lua cheia?

— Terça-feira que vem.

— Eu voltarei! — ameacei, desaparecendo na noite.

A aurora se aproximava e eu ainda não havia comido nada, então busquei algum cervo ou leopardo naquela mata, mas só encontrei siriemas, que eram fracas de sangue mas não difíceis de apanhar.

Decidido a libertar o predador que reside em mim, na noite seguinte invadi o zoológico. Fui até à jaula do grande urso de óculos, o urso sul-americano. O urso me olhou ressabiado e eu rosnei para ele como uma fera. O grande mamífero se colocou em pé, e quando eu dei o bote ele girou suas garras na minha frente descrevendo um arco, e com esse golpe me arrancou o braço direito jogando-o para longe da jaula. Dei um urro de dor e saltei para fora da jaula, peguei meu braço e olhei para ele desolado.

Nesse momento o zelador apareceu para ver o que estava acontecendo. Bella que se exploda, eu quero é um lanchinho.

Publicado nos websites:

http://www.airmandade.net/desafio-literario/desafio-literario-relampago/876-o-humor-na-litfan.html?start=9
 
http://www.recantodasletras.com.br/contos/4549169
 
 

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