domingo, 23 de fevereiro de 2014

# REVOLUTION


Homem de Ferro puto - por Moébius



Eu estava lá. Era o ano de 1995 e eu estava lá. Havia acabado de voltar da Califórnia e a revolução da web estava movimentando neurônios na América do Norte. A bolha começava a crescer na terra do Tio Sam, mas ninguém sabia disso na época. Quer dizer, algumas pessoas sabiam, pessoas bem posicionadas. Pessoas que estavam investindo seu capital nas ponto com corretas e realizariam seus lucros no momento exato. Para nós, idealistas, intelectuais e pseudo-intelectuais, pensávamos que estávamos desbravando o futuro. Destruindo paradigmas. Essa expressão virou moda, caiu no gosto do público, da imprensa, dos palestrantes em geral. Até em uma palestra sobre poda de bonsais em algum momento era preciso dizer que algum paradigma estava sendo quebrado. Chegando perto do final do milênio só havia paradigmas a serem quebrados. Já havíamos quebrado o muro de Berlim, quebrado o comunismo, a ditadura militar, etc. Aqui faltavam apenas dois meses para a liberação da internet no Brasil.
Uma revolução que criávamos em meio a uma série de especulações. O brasileiro vai ler mais, pois a internet é baseada em texto. A informação estará disponível a qualquer pessoa. O comércio será revolucionado. Poderá haver ondas maciças de desemprego no grande varejo. A cibercultura culminará com a criação de uma realidade virtual totalmente imersiva?
Naquela época não se cogitava de redes sociais. O grande fenômeno social era o AW, o Active Worlds, o avô do Second Life. Um mundo poligonal que pretendia emular a vida. Emulava a perda de tempo. Criou o sexo virtual, que era uma grande merda, pois sexo é sexo e ponto (não ponto com). O resto é tergiversar sobre o intangível, como em Barbarella, onde sexo é feito com pílulas. Não tínhamos ainda redes sociais, mas caminhávamos para isso. Havia o ICQ, o IRC e os BBS. Era o tempo das siglas, para tornar a coisa toda mais hermética.

Eu ouvia Revolution do The Cult e sonhava com as infinitas possibilidades do hipertexto e a criação de uma nova consciência com o conhecimento do mundo todo ao alcance de um clique, sem o controle das editoras e corporações definindo o que você deve saber ou não. Anarquia é ordem, já dizia Proudhon. Era a nova torre de Babel, erguida de bits e bytes, pixel por pixel.

Eu não fazia ideia que no final das contas chegaríamos a este ponto  a internet é um sonho de putas: uma imensa rede mundial de classificados. Compre, venda e ganhe lobotomia grátis através de uma conta no Facebook. Não se preocupe com nada, nós pensamos por você, nós lhe diremos o que usar, do que gostar e do que odiar, quem são os mocinhos e os bandidos em todas as áreas. De vez em quando você vai acreditar que pode pensar por si só (#o gigante acordou), mas é tudo controlado, apenas uma distração com um propósito bem delineado. Muito melhor do que a coisa real. Eu estava lá, meninos, eu vi as corporações lentamente se inserindo nesse contexto virtual e garantindo que nós não pudéssemos ver mais do que o que fosse conveniente. Parafraseando Frank Herbert, controle é tudo, e quem controla a internet, controla o Universo.

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