segunda-feira, 10 de março de 2014

O poder de um sonho

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“Nasci em 30-6-1922, em Paulista, município de Agudos, naquele tempo. Sou filho de lavrador, meu pai tinha um pequeno sítio, um sitiozinho, para falar em português claro. Estudei só até os 12 anos, mas acho que deu para aprender alguma coisa. Molhava-se a pena da caneta na tinta, foi assim que me acostumei a escrever, acho até que bem.
Às dez e trinta passava o Expresso de Prata com destino a Botucatu e a Bauru. Eu ia para a estrada só para ver o cobrador passando metido no seu elegante uniforme. Meu irmão falava:
"Isso é prá gente que sabe. Você nunca vai ser cobrador".
Meu sonho era ser cobrador, meu irmão sabia. Eu respondia:
"Um dia vou me aventurar".
Até 26 anos, porém, fui para a lavoura. Transportava cana, no tempo da safra, puxava café, arava a terra. Só depois, vim para São Paulo, sempre com a ideia fixa de ser cobrador.
"Vou ser cobrador", disse à turma, ao partir. Ninguém acreditou. Aqui logo me dirigi à CMTC, mas nada consegui. Frustrado, mas necessitando um salário urgente para sobreviver, tinha que me conformar com um quebra-galho na fábrica de pneus da Goodyear. A situação começou a melhorar um pouco depois de um ano com um emprego de servente na Aeronáutica, mas nada me fazia desistir de querer ser cobrador. Foi quando fiquei sabendo que a CMTC estava agora com vagas abertas para a função.
Nem é preciso falar, candidatei-me de imediato. Encaminharam-me a uma escolinha, o professor me recebeu com uma ducha de água fria.
"Quem não tem o primário completo não vai passar no exame, nem adianta fazer o curso".
Menti descaradamente:
“Tenho primário inteirinho".
As provas foram meio difíceis, mas consegui aprovação.Minha letra treinada no bico da pena, ajudou. Na hora de pedir demissão, meu chefe, um tenente, tentou me aconselhar: Você trabalha para o Governo Federal, isso é sempre garantia, não saia".
Revelei a ele meu velho sonho de ser cobrador e acrescentei:
"Vou ter um salário bem maior".
De fato, o salário de cobrador correspondia ao dobro, mil oitocentos e cinquenta cruzeiros, lembro até hoje. Minha admissão na CMTC deu-se no dia 10 de janeiro de 1951. Em 1954, passei a motorista.
Em Lençóis (Paulista), virei herói, nas minhas idas à cidade, me apontavam com o dedo. Eu era o homem que queria ser cobrador, consegui meu intento e, além de tudo, me tornara motorista.
Fiquei 15 anos no tráfego, quando me chamaram para trabalhar de motorista de chefia . Só dirigia carro auxiliar (perua, carro de passeio), apenas no período diurno. O salário aumentou e a carga horária diminuiu. Foi uma situação tranquila , antecedendo a aposentadoria. Nos últimos seis anos, servi apenas a um chefe de departamento, responsável pela garagem geral. Repetindo um dito muito comum entre nós, eu era meio "peixe".


O trecho acima foi retirado do livro Conduzimos, de autoria de José Aureliano Ribeiro de Vasconcelos, editado pela Editora Maturidade em 2013 (ISBN 978-85-98783-05-5), e é a transcrição das palavras de Dionísio Barbosa Dutra, meu avô, um homem que lutou e venceu, chegando muito além do que esperava ou imaginavam que ele fosse capaz de chegar. Fica o seu exemplo de uma vida de lutas e amor à categoria. Dionísio foi diretor da União dos Aposentados em Transportes Coletivos de São Paulo por muitos anos.
Para pedir o livro, envie um e-mail para csplendore@terra.com.br

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Diretores Bueno e Dionísio Barbosa






















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