RUÍNAS (CONTO)

 

 
No tempo em que passou no vilarejo Casa de Piedra, Lisandra costumava ir até as ruínas da igreja. A localidade ficava na margem norte do Rio Colorado, encravada no pampa argentino. Do templo só restara a fachada, não tinha mais as paredes laterais e seu interior arruinado estava repleto de vazio, talvez em homenagem às amplas planícies semidesérticas daquela região. Na época em que seu avô trabalhou na construção do dique, foi erguida uma vila de casas pré-fabricadas ao redor da igreja. Na verdade, não havia uma igreja naquela época, os trabalhadores se uniram e a erigiram depois. Trabalho comunitário feito aos domingos.
 
Provavelmente foi a melhor coisa que seu avô já fez na vida, conjecturava. Alguma coisa desinteressada feita pela comunidade, talvez até mesmo movida pela fé. Ao redor da igreja sobraram apenas os alicerces da antiga vila, retângulos cimentados onde um dia pessoas pisaram, viveram e sonharam. Foi em uma dessas casas que visitou seu avô, tantos anos atrás, quando ainda era criança. As casas pré-fabricadas foram transportadas para longe dali. Para outra obra? Para a periferia de Neuquén? Não sabia.
 
No centro das ruínas ela pedia aos anjos que lhe ajudassem. Se via como aquela construção, depois de tudo pelo que passou, só sobrou uma fachada. Observando a frente não era possível discernir qual seria o santo padroeiro, como não era possível afirmar qual a verdadeira identidade daquela mulher que orava em uma igreja morta na Patagônia. Ela tinha o nome de batismo, o nome que pegou de sua irmã e uma identidade falsa. A Santa Trindade Identitária, uma pessoa que é ao mesmo tempo três, ou talvez não seja ninguém.
 
Quem era morreu em Boulogne, agora cabia reconstruir, iniciar uma nova jornada, dar o primeiro passo. Um passo mais firme já que seus sonhos estavam enterrados sob pesadelos em ruínas. Se lembrou de quando encontrou sua irmã em Buenos Aires. Foi de peito aberto, após tantos anos de separação. A distância e o tempo nos levam a uma idealização dos outros. Projetamos o que gostaríamos de encontrar naquela pessoa, mas a realidade é sempre mais cruel com aqueles que ousam sonhar. A realidade é o algoz do sonho, sua antítese.
 
Um crucifixo de madeira havia sido pendurado na parede, como se para lembrar que ali um dia fora uma igreja. Fitou aquela cruz, se persignou e foi embora. Caminhou em direção à represa, para contemplar uma catedral natural. Sob o poente as águas do Colorado reluziam em tons rubros e dourados, brilhando e cintilando em portentosa oração, recitando em silêncio a mensagem eternizada no apócrifo de Tomé “rachai uma madeira: eu estou ali. Levantai uma pedra e me achareis”.
 
Mauricio R B Campos

 
 
(Epílogo inédito de Morte em Boulogne, livro disponível na Amazon e no Clube de Autores. Esse texto foi publicado na antologia Ruínas, da Editora Patuá, em 2020).

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