Contos para a Pandemia

Pintura simbolista, homens retorcidos


O outono começou em 20 de março e se estende até 20 de junho. A quarentena em seus diversos níveis, devido à pandemia do coronavírus, não se sabe até quando vai. Obrigados a readequar e a reformatar nossos hábitos em função das restrições impostas para combater a propagação da doença, vamos encontrando alternativas criativas para viabilizar a continuidade de nossas existências humanas, em todas as suas nuances. Integrando o espectro das necessidades compositivas daquilo que se compreende como “ser humano”, precisamos também atender às demandas do espírito, que se alimenta prioritariamente de arte e cultura.

É nesse sentido que já há alguns meses a editora independente catarinense de obras alternativas, obscuras e esquecidas, a Edições Nephelibata, vem oferecendo DE GRAÇA ao seu público uma série de livros de autores simbolistas e decadentistas, em especial egressos do século XIX, para apreciação e degustação nesse período. O projeto, que já concretizou a edição de cinco títulos até o momento, intitula-se “Outono da Quarentena” e as obras podem ser facilmente obtidas acessando o site da editora (edicoesnephelibata.blogspot.com) e fazendo o download gratuito (sem cadastro, sem firulas) de cada obra, primorosamente editadas em formato digital. "Do raro autor ao raro leitor" é o significativo lema da casa editorial.

Estão à disposição dos interessados os seguintes títulos:

Água e Sabão, de Medeiros e Albuquerque (1867 – 1934). Reproduz em formato de livro uma conferência que o escritor e intelectual pernambucano ministrou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e foi posteriormente inserida em sua obra “O Umbigo de Adão”, de 1932. O tema geral da palestra ministrada quase um século atrás gira em torno de questões relativas à assepsia, conversando com as preocupações hodiernas.

A Testemunha, de Edmond Haraucourt (1856 – 1941). Conto integrante da obra “Os Náufragos” (1902), pela primeira vez traduzido para o português pelo editor da Nephelibata, Camilo Prado. Haraucourt foi um proeminente contista e romancista francês, integrante dos movimentos decadentista e simbolista.

O Monstro e o Duende, de Saint-Pol-Roux, “O Magnífico” (1861 – 1940). A obra, um conto de 1901, representa bem as características literárias desse francês que é considerado um dos fundadores do Surrealismo, ao lado de Alfred Jarry, André Breton e outros. O epíteto de “O Magnífico” foi ele próprio quem conferiu a si mesmo. Hoje, é tão desconhecido no Brasil quanto na França. Com o detalhe de o texto desta tradução deliberadamente “não seguir a nova ortografia”.

O Robe Amarelo, de Thassio Rodriguez Capranera (1995 -). Conto inédito do jovem escritor brasileiro, que também “não segue a nova ortografia”. Thassio é tradutor de obras de Percy Shelley, Horace Walpole, W. H. Hodgson e outros. Obra editada pela Edições Nephelibata em parceria com a também independente Sol Negro Edições, de Natal (RN). *

Agonias de um Livre-Pensador na Era de Aquário, de Camilo Prado (1969 -). Conto filosófico de autoria do editor da Nephelibata, também determinado a não seguir a nova ortografia e em parceria com a Sol Negro Edições. *

*Observação: Essas duas obras, desses dois autores, estranhamente contradizem o alerta publicado na página inicial da Edições Nephelibata: “Autores vivos que desejam ser editados pela casa façam antes o favor de MORRER!”.

A Edições Nephelibata tem sede na Ilha de Florianópolis (SC), ou melhor, “Desterro, na Província de Santa Catarina”, conforme prefere situar o editor, Camilo Prado, evocando a forma como a capital era conhecida até 1894, quando o então governador Hercílio Luz (que hoje é nome de ponte) decidiu trocar o nome da capital para Florianópolis, em homenagem ao então presidente da República Floriano Peixoto, finda a Revolução Federalista). A editora está na ativa desde o ano de 2001, obedecendo a um projeto editorial que dá primazia à publicação de autores do passado, em especial do século XIX, de preferência obscuros, esquecidos, mas que foram significativos entre os seus em suas épocas.

A lista de autores já publicados é extensa e de qualidade. Entre eles, Marcello Gama, Ambrose Bierce, Charles Baudelaire, Giacomo Leopardi, H. P. Lovecraft, João do Rio, Jorge Luis Borges, Leopoldo Lugones, Machado de Assis, Mário de Sá-Carneiro, Michel Foucault e muitos outros. A lista completa das obras, autores e coleções está disponível no blog da editora. Os livros impressos podem ser solictados a partir de contato direto com a editora pelo e-mail edicoes.nephelibata@gmail.com, sendo enviados pelos Correios mediante pagamento por depósito bancário.

O editor, Camilo Prado, nasceu em 1969 no litoral da província de Santa Catarina. Conforme consta no blog, “depois de diversas ocupações e ofícios normais, tais como bancário, servente de pedreiro e professor, criou em 2001 a Edições Nephelibata, especializada em edições de livros artesanais. É também tradutor, do francês e do espanhol, e autor de alguns livros de contos: Nefas (2004), Uma Velha Casa Submarina (2005), Pulcritude (2006). Concluiu doutorado em Literatura, na Universidade Federal de Santa Catarina, com tese em tradução da obra Tribulat Bonhomet de Villiers de L’Isle-Adam”, em 2011 e fez pós-doutorado em 2013.

Conforme explica em entrevista concedida a Adriano Lobão Aguiar, o nome “Nephelibata” surgiu por sugestão de um amigo: “Na época em que comecei com a ideia de editar livros, eu mencionava muito essa palavra porque estava lendo poetas simbolistas como Emiliano Pernetta, Ernani Rosas e B. Lopes. Alguns deles eram chamados de nefelibatas; era um termo um pouco depreciativo no século XIX. Para variar, vindo da França, onde o termo era usado para depreciar os decadentes e simbolistas de lá. Depois passei a usar a palavra na grafia antiga, com ph no lugar do f, isso acentuou a direção em que quero levar as Edições: o século XIX”.

Vasculhe o site e encontre as boas leituras que estão lá, à sua espera, nessa quarentena de outono.

Texto de Marcos Fernando Kirst

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