O Lembrete

Por Frank Roger
Traduzido por Mauricio R B Campos

Jeffrey tomou um golinho do seu chá, pôs o copo abaixo e fitou fixamente à sua frente. Ele teve a sensação de que sua mente foi atacada por um lapso de memória. O que poderia ter sido? Espere um segundo, ele pensou. Não teria ele preparado algo para situações como esta? Uma ideia subitamente lhe ocorreu. Seus bolsos! E se ele procurasse em seus bolsos? Ele começou pelas calças, depois passou para a camisa e finalmente em seu casaco. Obviamente, estava lá. Uma nota, com alguns rabiscos. Deveria ser algo importante, ou ele não teria escrito.
E agora, onde estariam seus óculos? Ele não conseguia se lembrar aonde os colocou. Ele procurou em seus bolsos novamente, mas não encontrou nada. Nas gavetas de sua escrivaninha, talvez. Na mesa da cozinha?
Demorou um pouco para localizar seus óculos (eles estavam no banheiro, e quando ele voltou a sentar em sua cadeira, se perguntou por que os trouxe. Jeffrey não estava lendo o jornal, estava? Então pra quê ele precisaria de seus óculos? Deixou-os de lado, procurou seu chá e então viu a anotação próxima de seu copo. Poderia ser para isso? Ele apanhou seus óculos novamente, os colocou e leu a nota.
Estava escrito à mão. “Fique atento que sua memória não está como costumava ser. Faça notas de coisas importantes, e se lembre onde você as colocou. Isso irá ajudar você a organizar seus dias. Sempre carregue sua caneta e seu bloco de notas. Eles serão muito úteis agora que você está só. Não deixe sua memória falha o abalar.”
Ele acenou com a cabeça, mostrando compreensão, e colocou a nota novamente em seu bolso. Era verdade que ele estava sofrendo de problemas de memória, e agora que ele estava só, depois do falecimento da pobre Margareth, ele teria que organizar os seus dias o melhor que pudesse. Ele deveria tentar contender com sua memória falha, não sucumbindo. Fazer essa anotação foi uma excelente ideia.
Agora quem teria dado essa ideia novamente? Ele pensou por alguns momentos, então terminou seu chá e recostou na cadeira.
A vida não foi assim tão ruim, mesmo quando ele se sentiu terrivelmente solitário sem sua mulher. Eles foram casados por... quantos anos? Ele franziu as sobrancelhas enquanto tentava se lembrar quando ela teria falecido. Não foi há tanto tempo assim, ou teria sido? Ele ainda podia se lembrar de sua face, mas não conseguia lembrar o nome dela neste momento. Ele meneou a cabeça. Como seria possível ele ter esquecido o nome de sua esposa recentemente falecida? Obviamente sua memória o estava traindo.
Espere um segundo, ele pensou. Não teria ele encontrado uma forma de lidar com o problema? Uma ideia subitamente lhe ocorreu, seus bolsos! E se procurasse em seus bolsos? Ele procurou e encontrou um bloco de notas e uma caneta. Agora qual a finalidade disto? Ele não costumava escrever notas, costumava? De qualquer forma, para quem ele iria escrever as tais notas?
Ele colocou a caneta e o bloco de notas próximo ao seu copo, e tentou concentrar-se no problema que o afligia. Mas, qual problema era este mesmo? Eu falho em lembrar, ele pensou.

Eu acho que minha memória não está como costumava ser. Bem, ele concluiu resignado, não há muito que eu possa fazer, eu posso...

Frank Roger

Frank Roger nasceu em 1957 na cidade de Ghent, Bélgica.
Sua primeira história apareceu em 1975. Desde então suas histórias apareceram em um crescente número de idiomas em todos os tipos de revistas, antologias e outros meios, e desde 2000, coleções de histórias foram publicadas, também em vários idiomas. Além de ficção, ele também produz colagens e trabalhos gráficos numa tradição surrealista e satírica.
Até agora ele tem mais de 700 contos publicados (incluindo uns poucos pequenos romances) em mais de trinta idiomas. Mais informações podem ser encontradas no site do escritor.
Página do escritor:
http://www.frankroger.be/.

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