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V de Revolução

Manifestantes com a máscara de Guido Fawkes

Final dos anos 1980. Uma nova era de ouro para os quadrinhos, as graphic novels reinavam absolutas, com títulos que revolucionariam a cultura ocidental: Watchmen, Sandman, O Cavaleiro das Trevas e V de Vingança. Graças à um amigo que tinha condições de comprar esses álbuns com preços proibitivos para mim, eu pude ter acesso à todos os grandes títulos lançados no Brasil na época. E V de Vingança mexeu com meu coração pré-adolescente.
Para quem já era fã do punk rock e do seu caráter contestatório, aquilo foi uma bomba. O povo não deveria temer o seu governo, mas o governo deveria temer o seu povo. E assim tudo se iniciava com a explosão do parlamento inglês, retomando a mítica figura de Guy Fawkes. Guy Fawkes? Então eu ia até a biblioteca para descobrir quem era esse cara (não havia a Wikipédia, muito menos internet, pessoal, tempos jurássicos). Então a britânica dizia que Guy Fawkes foi um cara que nasceu em Iorque, em 13 de abril de 1570, também conhecido como Guido Fawkes, e tornou-se um revolucionário. Foi um soldado inglês católico que teve participação na Conspiração da pólvora (Gunpowder Plot) na qual se pretendia assassinar o rei protestante Jaime I da Inglaterra e todos os membros do parlamento durante uma sessão em 1605, objetivando o início de um levante católico. Guy Fawkes era o responsável por guardar os barris de pólvora que seriam utilizados para explodir o Parlamento do Reino Unido durante a sessão.
Porém a conspiração foi desarmada e após o seu interrogatório e tortura, Guy Fawkes foi condenado a execução na forca por traição e tentativa de assassinato. Outros participantes da conspiração acabaram tendo o mesmo destino. Sua captura é celebrada até os dias atuais (na Inglaterra) no dia 5 de novembro, na "Noite das Fogueiras" (Bonfire Night).
Então toda aquela viagem do Alan Moore, o escritor, não saíra do nada, mas era parte de todo um processo de amalgama de ideias e ideais em um caleidoscópio revolucionário. Anarquia é ordem, dizia Proudhon, e uma revolução se faz com molotovs, bradava Bakunin, o revolucionário russo que com certeza serviu de inspiração para a criação da figura andrógina V.
E o que aconteceu comigo quando eu era um pré-adolescente, acontece hoje com essa massa que toma conta da paulista. O cinema deu três dimensões à V, e hoje a máscara de Fawkes estava na Turquia, na primavera árabe, no Egito, no Occupy Wall Street, nos grupos de direito à informação, etc. V de Vingança é uma HQ que deveria ter sido proibida, pois é um molotov para as consciências. Os regimes e os governos deveriam tê-la banido. A China proibiu a exibição do filme por um tempo, até se dar conta do absurdo que nada mais pode ser censurado na era da informação.
O filme produzido pelos irmãos Wachowski tem um final diferente do quadrinho. O final do quadrinho, ou poderia dizer, no final original, após a morte de V, Evey assume a persona de V e continua seu legado. V morre de modo dramático. Após completar sua vingança, ele sai como se não fosse um ser humano, como se não estivesse prestes a expirar. Você pode matar um homem, mas você não pode matar um ideal.
Essa é a frase chave do romance gráfico, e é a frase que marcou as manifestações da semana passada, quando um jovem se aproximou da tropa de choque paulistana com uma flor nas mãos. E aqueles homens da tropa de choque, nervosos, treinados para o ataque e a selvageria, ficam sem ação. Os fotógrafos têm o seu momento de glória. Mas em meio à multidão que grita palavras de ordem, onde muitos vestem a máscara de Guy Fawkes, o que impulsiona aquele jovem em direção à Choque, apesar do perigo, apesar de sua própria vida, tudo surgiu da máxima trazida a nós por Alan Moore: 

Você pode matar um homem, mas não pode matar um ideal.
 
 


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