Resenha - Arranha-céu


VENCEDOR DO PRÊMIO ABERST LÚCIA MACHADO DE ALMEIDA – NARRATIVA CURTA DE CRIME

Em 2053 a primeira torre humana ultrapassou as nuvens.

A partir de 2103, nenhuma luz era mais capaz de tocar o chão.

Na megalópole com prédios de dois mil andares, a sociedade é segregada pela altitude. Os ricos vivem sob o brilho do sol, enquanto os pobres minguam na escuridão da superfície. Quando uma mulher desaparece, um detetive dos andares médios é lançado em uma investigação nos subníveis. Do topo da megacidade, ele descobrirá que se você encarar o abismo, o abismo olhará de volta. Caberá a você decidir se vai piscar para ele.


Resenha

O conto parte de um tropo muito interessante da ficção científica, que é o cenário de ambientes megalomaníacos, ciclópicos, descomunais, que ao mesmo tempo que exercem fascínio pela sua magnitude, por outro lado oprimem pelo confinamento. Enquanto nos centros urbanos as melhores soluções de moradias são oferecidas nos menores espaços, e já há apertamentos minúsculos, Studios dignos de Hong Kong, Tóquio ou o centro de Londres em plena São Paulo; esse tipo de narrativa opressiva nos seduz, pois parece oferecer uma esperança de saída de nossa realidade encaixotada. 

Juiz Dredd

Silo, Juiz Dredd, O Poço, Fall Out, Expresso do Amanhã: todas são obras sobre o confinamento do individuo em mega-estruturas. E todas bebem de uma mesma fonte, que talvez não tenha sido o criador desse tipo de história, mas com certeza foi quem primeiro transformou o conceito em uma grande obra, instigante e misteriosa, que se mantém atual mais de 50 anos de seu lançamento: Isaac Asimov e seu mistério noir sci-fi Cavernas de Aço. Não posso dizer que Asimov desenvolveu essa estrutura de cenário pois ele reciclava muitas ideias anteriores, de autores de sci-fi clássicos e mesmo de pulps. I, Robot é uma obra que homenageava um conto de mesmo nome anterior, por exemplo.

Em Arranha-céu temos uma trama também investigativa em um mundo sombrio onde o sol é um luxo, mas se em Cavernas de Aço parecia ser idílico para Asimov toda população do país viver em um ambiente de Shopping Center infinito, com toda a sua esperança de que o futuro seria brilhante como raios de sol batendo numa ponte de aço inoxidável ao entardecer; em Arranha-céu esse tipo de inocência do início do sci-fi não tem cabimento. Na mega-estrutura de Mário Bentes o sistema é bruto como em Mega-city Zero do Juiz Dredd. E o paralelo com o juiz também se dá pela crítica social (não, o Dredd não é modelo, ele foi criado para ser uma sátira do gorila facista típico). Há toda uma construção social que transforma as megaestruturas do livro em um grande experimento de sociedade.

No livro não há nomes, há o Investigador, a Filha do Governador, o Barman. Essa ideia de que o livro possa se passar em qualquer lugar é justamente por ser uma história universal. E a temática que permeia o livro não poderia ser mais atual, em tempos nos quais vemos o ressurgimento de movimentos totalitários e a morte do raciocínio lógico em escala nunca antes vista. É patético que a Era da Informação foi transformada em a Era da Desinformação.

A narrativa é rápida e ágil: é livro para ler de uma vez, se trata de um conto que tem uma virada narrativa que surpreende e leva a um final completamente inesperado. Ideal para quem busca algo que vai além do óbvio. Por esses méritos o conto levou o Prêmio ABERST Lúcia Machado de Almeida – Narrativa Curta de Crime.







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