quarta-feira, 12 de junho de 2013

Um olhar



Não. Eu não posso dizer o que o amor é. Palavras não foram destinadas para isso. Os leitores vorazes, os devoradores de livros, estão acostumados a criar mundos imaginários dentro de sua mente, mundos que são incapazes de serem reproduzidos no cinema, pois cada mundo imaginário criado pelo leitor é único, carregado com as características da personalidade do leitor, suas experiências e sua bagagem. Não, nem a essa classe de leitores é permitido descobrir através das letras o que o amor é. De todas as intangibilidades o amor é a mais impossível de descrever. Muitos tentaram e fracassaram, apenas aos poetas é permitido alguma ventura nesse intento, e os intelectuais para fugir do tema desenvolveram uma palavra pejorativa para esse assunto, piegas. Falar de amor é piegas. Melhor falar de cálculo, física quântica, teoria literária, astrofísica, etc. Vejamos um exemplo de tentativa de descrição, a Wikipédia, o sabe-tudo do século XXI, a enciclopédia livre onde qualquer um pode disseminar sua ignorância pela web:


Amor, é o nível ou grau de responsabilidade, utilidade e prazer com que lidamos com as coisas e pessoas que conhecemos.
A palavra amor (do latim amor) presta-se a múltiplos significados na língua portuguesa.

E continua por esse caminho árido de descrever amor filial, amor platônico, compaixão, etc. O dr. Google dá a definição da Wikipédia e segue com links como respostas do Yahoo Respostas, Dictionary.com etc. Quer dizer que ninguém seria capaz de mostrar a um robô, se um dia inventarem um robô inteligente (o que eu não acredito), o que é o amor?

Uma das primeiras lições dos romancistas best-sellers é show no tell, ou seja, mostre em vez de dizer. Então, se é impossível explicar, podemos dizer como o amor começa, começa com um olhar. Um olhar para a garota na carteira ao lado na escola, um olhar para o banco da frente na igreja, no ônibus, no metrô, na janela da vizinha. Não há uma regra, essa é a regra de ouro. É um sentimento que surge à partir do improvável, do mínimo, do menosprezado. Uma situação que parece que não tem nada demais. Nada mais que um olhar. O primeiro olhar não é mais do que um olhar de interesse, uma curiosidade pura e simples. Não se trata de flerte, o flerte vem depois. Desconfio que paixões começam em flertes, mas não necessariamente o amor.
O amor move o mundo. Não sou eu quem diz, é o mulato, o maior mulato do Brasil, Machado de Assis, para ele "o amor é a lei da vida, a razão única da existência" É um paradoxo, ele faz a Terra girar e ao mesmo tempo, em situações especiais, faz o tempo parar. É o amor. Terei de me esconder ou de fugir. Assim o argentino Jorge Luis Borges demonstrou sua sapiência. Mas onde ele poderia se esconder do amor? O cupido é um demônio feroz, e ninguém consegue descobrir um local onde ele não possa chegar por caminhos retos ou tortuosos. Orfeu desceu até o Hades, o lugar dos mortos da mitologia grega, em busca de sua amada Eurídice, mas nem mesmo nos mais remotos e tenebrosos recônditos das trevas não pode se esconder do amor, que lhe atormentou durante o restante de sua existência após falhar em resgatar sua amada das mãos dos tiranos do mundo dos mortos.
Se não podemos escapar do amor, que nos busca até nas profundezas, deixemo-nos levar por ele, e, quando encontrarmos um robô apaixonado talvez possamos dizer que nada é impossível, e termino essa crônica com outra pérola de Borges, pois talvez ele também tenha cansado de fugir:


Louvado seja o amor no qual não há possuidor nem possuída, mas os dois se entregam. 


Esta crônica foi publicada por ocasião do dia dos namorados no Portal de Notícias K3.

Portal K3

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