O Noir está morto

Nos anos 30 e 40 dois autores revolucionaram a literatura policial. Seus nomes: Dashiell Hammett e Raymond Chandler. Ambos desempenharam suas atividades em várias profissões, sendo que ambos foram detetives particulares em sua vida real. A literatura policial americana era tida por literatura de segunda classe, pois os livros eram baratos.
O detetive Philip Marlowe, de Chandler, transita por uma Califórnia cheia de glamour e sujeira, poluição e álcool, celebridades e violência. Marlowe resolve casos envolvendo atores e diretores de Hollywood, escritores e artistas. Ele é um detetive barato, sempre duro, mas com valores morais fortes como o ferro, os quais ele defende de maneira obtusa. Também presentes em sua trama a polícia corrupta e os gângsters.
É próprio do ser humano a curiosidade, se você ler no jornal que Fulano morreu, pode até não conhecer a pessoa, mas ficará intrigado em saber como foi a morte, quem matou o Fulano, se o assassino foi pego, etc. Naquela época havia muito interesse pelas figuras de Hollywood e seus excêntricos figurões. Os elementos básicos do noir também eram muito chamativos: mulheres fatais, cenários de luxo, o detetive melancólico, o assassinato misterioso, em circunstâncias tão dúbias quanto o caráter das demais personagens da trama. Era uma excelente literatura de entretenimento, na medida certa para o trabalhador  ler na hora do almoço ou no transporte público. Por quê? Porque aquilo estava a quilômetros de sua realidade (seria mais apropriado dizer a milhas) longe de sua realidade, de seu cotidiano: mortes, assassinatos, glamour, femme fatale.
O inusitado de ler sobre a violência era justamente que essa violência não lhe era familiar. Ok? Quer dizer que não havia violência nos Estados Unidos nessa época? Havia, com certeza. Desde que Caim matou Abel nossas mãos estão sujas de sangue. Mas o que quero dizer é que o nível de violência daquele período não se compara ao nível atual de violência.
Essa semana no Brasil (para você que está lendo essa crônica agora, é indiferente qual semana seja, infelizmente o quadro não parece que vai mudar nos próximos meses [isso porque eu sou otimista]) quatro jovens, estudantes universitários, foram mortos antes de ser assaltados. Eles não reagiram, foram executados. Você leu certo, eles não reagiram ao assalto, foram executados. O noir era uma forma do público entrar em contato com uma violência que eles ouviam falar, mas que desconheciam os detalhes sórdidos. Lendo O Longo Adeus ou O Falcão Maltês, era uma forma de consultar os arquivos da polícia de Los Angeles. Era como olhar nos olhos da morte na segurança de seu sofá. Mas tudo isso já passou, as pessoas não se sentem seguras no sofá, olham para a fechadura da porta: será que eu me lembrei de passar as trancas? A morte está na soleira da porta, espreitando... Não temos mais interesse pela morte, o assassinato misterioso só nos lembra da torpeza da humanidade: o noir está morto.

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