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Mostrando postagens de Fevereiro, 2014

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O Tablado

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O velho olhou o mar e seu coração se encheu de melancolia. As vagas lhe separaram do mundo esses anos todos. Sua família sempre esteve lá, além dos colossos de correntes marítimas que se digladiavam dia e noite em épicas batalhas, invisíveis aos olhos humanos, mas que seduziram anjos e outras criaturas no desenrolar das eras. Os elementais deviam fazer seu trabalho, fazer a água circular por todo o globo, e, enquanto uns traziam o calor das águas quentes e a esperança do florescer dos trópicos, outros, além do véu da nossa vida ordinária, buscavam levar o frio cortante para o coração de todas as criaturas vivas, trazendo as águas do âmago das trevas eternas abaixo dos colossos de gelo imemoriais dos polos águas cortantes para contaminar os mares.
O velho olhou para o céu. As nuvens acinzentadas corriam para o horizonte, como se impulsionadas por cavalos invisíveis cujo trote ribombava pelos trezentos e sessenta graus daquele imenso tablado que se convencionou chamar de Atlântico. O me…

Vapor d'água

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# REVOLUTION

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Eu estava lá. Era o ano de 1995 e eu estava lá. Havia acabado de voltar da Califórnia e a revolução da web estava movimentando neurônios na América do Norte. A bolha começava a crescer na terra do Tio Sam, mas ninguém sabia disso na época. Quer dizer, algumas pessoas sabiam, pessoas bem posicionadas. Pessoas que estavam investindo seu capital nas ponto com corretas e realizariam seus lucros no momento exato. Para nós, idealistas, intelectuais e pseudo-intelectuais, pensávamos que estávamos desbravando o futuro. Destruindo paradigmas. Essa expressão virou moda, caiu no gosto do público, da imprensa, dos palestrantes em geral. Até em uma palestra sobre poda de bonsais em algum momento era preciso dizer que algum paradigma estava sendo quebrado. Chegando perto do final do milênio só havia paradigmas a serem quebrados. Já havíamos quebrado o muro de Berlim, quebrado o comunismo, a ditadura militar, etc. Aqui faltavam apenas dois meses para a liberação da internet no Brasil. Uma revolução …

E o nada

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Joyce chegou em casa por volta das três horas, abriu o portão com a facilidade de sempre e subiu a escada até sua quitinete no primeiro andar.  Pegou o molho de chaves e abriu a porta de sua casa. Na porta o número 2 do número 25 pendia meio torto. Ela anotou mentalmente que precisava consertar isso. A porta rangeu e ela entrou. Foi ao banheiro.  Pensou  nos acontecimentos da noite anterior, mas se arrependeu. Não deveria pensar nisso agora. Punta del Este, a Las Vegas da América do Sul. María lhe levava pelo braço. A beleza da noite, as estátuas e o brilho opaco de uma lâmpada de rua. Através do vidro leitoso dos biombos da sala de computadores do hotel ela divisou as coxas de María. Coxas de leite. Estou na terra do leite e mel, pensou, enquanto se ocupava de enrolar uma mecha de seu cabelo na ponta dos dedos. A deliciosa falta de familiaridade dos ambientes estrangeiros. O som da língua que ela não dominava preenchia os espaços e a língua portuguesa só vagava em sua mente. Imersão t…

Jackpot de Départ

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A obra máxima de Charles Garnier estava em frente de meus olhos. O arquiteto não economizou detalhes ao desenhar o cassino que seria sinônimo do gênero por toda a eternidade. Em cada afresco  do estilo Belle Époque olhos já lançaram juras de maldição e lábios soltaram beijos de gratidão. Naquele átrio a fortuna e a miséria andavam de mãos dadas, uma correndo atrás da outra. Adentrei a sala de jogos onde o clássico e o moderno encontravam seu equilíbrio no requinte. Fui saudado por uma jovem linda e elegante, que polidamente me ofereceu um cartão de fidelidade. Fiquei alguns minutos perdido no azul daquele olhar enquanto sua voz suave me explicava cada vantagem do 777 - The Slot Privilège card. Olhos azuis. Como os de Josh, o garoto portava o azul do mar profundo, mesmo estando em um deserto. A garota sorriu, e o sorriso de Josh veio à sua mente, quanto tempo ficara perdido naquele sorriso de criança, um sorriso que era só amor para ele. Não, não estava interessado em cartões de fidel…

A Última Gota

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O chapéu comprido de lã do velho foi a primeira coisa a surgir atrás da duna no deserto de Basamortu. Mas ninguém estava vendo o velho chegar montado no grande rinoceronte africano geneticamente domesticado.  Eles foram até a entrada da grande tenda onde o mercador dormia o sono dos justos, cansado que estava da visita de ninguém. O velho soldado desmontou com dificuldade do grande animal e se dirigiu para a tenda onde buscava água e mantimentos, mas principalmente água. Como não viu ninguém, pegou um odre e virou-o na garganta. Fazia três dias que não bebia nada. A água lhe refrescou, e vendo um banquinho de madeira, o velho se sentou. Olhou em volta e quis chamar alguém, mas a voz lhe faltou. Uma rouquidão se esfregou em sua garganta e ele quis tossir, mas não conseguiu. Tentou aspirar o ar, mas não conseguiu. Sentiu uma trava na garganta, como se alguém lhe apertasse o pescoço com mãos de ferro invisíveis. Tombou no chão quente da tenda e se debateu por algum tempo até expirar.

MM38 ou O dia no qual esperamos peixes voadores franceses

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Reunidos em volta da mesa jogamos cartas por horas e horas. Por ser proibido fumar no abrigo, há ânimos exaltados. 6. Truco. 9. Ladrão. 12. Um murro. A mesa virada. Uma lâmpada que balança no fino fio que desce do teto embolorado. Os homens são separados e cada um se dirige para um canto da sala. Um agacha, outro senta, o terceiro fica em pé fitando a lâmpada que como um pêndulo ainda balança, fazendo sombras bailarem nas paredes, um quarto tira um lenço do bolso de trás da calça e enxuga o suor do rosto.   As pessoas gostam de ignorar o horror, virar sua face o outro lado. Não é bem assim, alguém exagerou, dizem pra si mesmas. Pois é, se respondem. E assim seguem suas vidas ordinárias como se nada houvesse acontecido. Mas todas as ações humanas são cumulativas. Como as coloridas camadas do solo que um arqueólogo examina tentando descobrir o passado de um monte de pedra e lama. Cada omissão deixando que o mal se propague como uma ondulação em uma superfície líquida. Que se soma a out…

Micro relato

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A autoestrada nascia de uma rotatória, serpenteando no meio dos pinheiros. Floresta de pinheiros onde pululavam os gaviões e as seriemas.  Onde um dia lobos caçaram. Agora um garoto vomita um sorvete no gramado mal aparado do acostamento. Passo pelo resort, passo ao largo da represa do Lobo, o sol brilha refletido nas águas calmas do balneário, mas só consigo vê-las num relance, um intervalo entre um pinheiro e outro, como um homem que olha de rabo de olho e vê o reflexo do sol num espelho. Há muito tempo atrás, guiei por outras linhas amarelas que cruzavam o asfalto preto, outra autoestrada. Cortando Vigo acompanhei suas linhas amarelas até o horizonte. No céu límpido uma aeronave cruzou o zênite. Provavelmente decolou do aeródromo dr. José Augusto de Arruda Botelho, onde ano passado houve uma explosão. E numa bola de fogo um piloto alçou seu último voo.
Em outra vida, Vigo. Agora, cruzando a rodovia Ayrton Senna. Algumas memórias deveriam fenecer como folhas no outono. No rádio do aut…

Jogo inspirado no livro Sonhos Lúcidos

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O livro de contos fantásticos Sonhos Lúcidos, publicado pela Andross Editora, ganhou esta semana um jogo de videogame no estilo aventura rpg (rolling playing game). O jogo foi criado por Samuel de Andrade e Aziel Guerriz, baseado no conto "A Lenda da Floresta", escrito por eles em co-autoria. O jogo foi desenvolvido com base no software "RPG Maker", um motor de desenvolvimento de jogos no estilo do clássico Legend of Zelda versão Super Nintendo. A jovem dupla postou um vídeo no You Tube, contendo informações sobre como baixar, instalar e jogar a aventura, que dispensa quaisquer programas prévios instalados: A Lenda da Floresta no You Tube.


Ligações externas:
Aziel Guerriz: Facebook.Samuel Andrade: Facebook
Esta postagem foi desenvolvida no Polaris Office.




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